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Acre deve virar Rondônia? Ou Rondônia deve virar o Acre?

Acre e Rondônia são estados vizinhos da Amazônia brasileira. Dois estados com tamanhos parecidos,

19/12/2021 às 11h54
Por: João Teixeira Fonte: ac24horas
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Daniel Barcelos Vargas* Vinícius Hector Pires Ferreira
Publicado no Estadão

Acre e Rondônia são estados vizinhos da Amazônia brasileira. Dois estados com tamanhos parecidos, envolvidos pela floresta, e com projetos muito distintos de relação com a terra. Ao longo dos últimos 20 anos, como os dois projetos avançaram? Rondônia cresceu mais, ao preço do desmatamento. O Acre preservou mais, ao preço da estagnação.

O Acre é o estado brasileiro por opção. O estado que lutou contra a Bolívia, e lutou contra o Brasil, para ser reconhecido brasileiro.  Na virada do século XX, foi povoado por migrantes, especialmente do Nordeste, que se uniram às fileiras da exploração do látex, durante o ciclo da borracha. Rapidamente, o Acre se tornou o estado do extrativismo—ou o estado da floresta.

Rondônia, por sua vez, é o estado do empreendedorismo no campo. Ainda como território do Guaporé, nas décadas de 1970 e 1980, a região hospedou programas de assentamento do INCRA e o Polo Noroeste, projeto de colonização do governo federal que atraiu migrantes sulistas vocacionados à produção e alocados em pequenas propriedades no campo. O empreendedorismo rural rapidamente converteu Rondônia em fronteira pujante do agronegócio, em especial, da pecuária.

Nos últimos 20 anos, os projetos de Acre e Rondônia tiveram frutos diferentes.

Na economia, o contraste de performance entre o “Acre dos extrativistas” e a “Rondônia dos pecuaristas” é marcante. Em 2002, o PIB per capita de Rondônia era de R$ 20.3 mil, enquanto o do Acre, R$ 19.7 mil.  Ou seja: os estados possuíam renda equivalente.  Quase duas décadas depois, o PIB per capita de Rondônia aumentou quase 50%, batendo R$ 29.1 mil em 2018, ao passo que o Acre parou no tempo: o estado chega a 2018 com PIB de R$ 20.4 mil, praticamente o mesmo valor de 2002.

             

Na área social, o contraste entre os dois casos também é significativo.  Em 2006, repasses do Bolsa Família em Rondônia eram de R$ 90 per capita. No Acre, R$ 123.  Quase uma década e meia depois, em 2019, o que ocorreu com os números?  No Acre, as transferências do programa federal quase triplicaram, atingindo valor de R$ 356 per capita.  Rondônia, por sua vez, manteve a proporção de transferências quase inalterada em relação a 2006: R$ 87 per capita.

                     

Desde a crise de 2014-2016, a velocidade da reação de Acre e Rondônia também tem sido muito diferente.  Em Rondônia, bastaram dois anos para que o estado recuperasse o nível de renda per capita de 2014.  Já no Acre, em 2018, a economia do estado permanecia 20% inferior ao início da crise e, ainda hoje, não foi capaz de retomar nível do passado. Na mesma linha, as transferências de renda per capita do Bolsa Família em Rondônia eram 50% menores em 2019, em comparação com 2014, enquanto no Acre a queda foi de 8%.

Nada disso, vale ressaltar, veio sem um preço ambiental.  O Acre foi muito mais capaz de preservar a floresta e de conviver em relativa harmoniza com ela. Hoje, o estado mantém-se 87% preservado, em que pese sinais crescentes de desmatamento.  Rondônia, por sua vez, cresceu com modelo econômico que pressionou muito mais a degradação. Hoje, o estado já perdeu 37% da sua cobertura florestal.

                   

Qual dos dois projetos é melhor? O melhor é não ter de escolher entre crescimento ou preservação; entre pobreza ou devastação. O melhor é abrir espaço, em cada estado, para a geração de renda e riqueza com inclusão produtiva, conciliando as aspirações legítimas de progresso e bem-estar de todo indivíduo, com a necessidade de preservação ambiental. Para isso, o Acre não tem de virar Rondônia, nem o inverso. O melhor caminho é cada um tentar se tornar outra coisa, ou uma versão melhor de si mesmo.

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