
No dia 31 de março de 2026, a Universidade Federal de Rondônia (UNIR) realizou, no Auditório da Biblioteca Setorial do Câmpus Jorge Vassilakis, em Guajará-Mirim, o evento “Literatura, memória e fronteiras amazônicas”. A ação integrou o projeto Letramento Literário na Biblioteca: foco nas obras de literatura regional amazônica, voltado à promoção da leitura na Educação Básica, com ênfase na produção literária amazônica, especialmente de Rondônia.
A iniciativa foi coordenada pelas professoras doutoras Auxiliadora dos Santos Pinto, Márcia Dias dos Santos e Charlene Bezerra dos Santos, pelo professor mestre Celielson de Aguiar Brito, pela professora mestre Eunaia dos Santos Mercado, pela bibliotecária Marília Rodrigues de Assunção e pelo gestor cultural Dr. Juan Carlos Crespo Avaroma.
A organização envolveu acadêmicas do curso de Letras (turma 2023/I), integrantes do GEPELLIM (Grupo de Estudos e Pesquisas Literatura, Língua(gens) e Memórias das/nas Fronteiras Amazônicas) e do GELFAM (Grupo de Estudos Linguísticos na/da/em Fronteira Amazônica), com apoio da AGL (Academia Guajaramirense de Letras) e de docentes do IFRO (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia).
Participaram acadêmicos de Letras e Pedagogia, professores e estudantes da Educação Básica, incluindo o Colégio Tiradentes da Polícia Militar (CTPM X) e a Escola Indígena Estadual de Ensino Fundamental Canum Oro Waram, além de gestores culturais de Guayaramerín (Bolívia), consolidando o caráter transfronteiriço do encontro.
Programação
1. Exposição fotográfica “Resgatando as memórias de Cachuela Esperanza”
Das 9h às 17h.
A exposição contou com a curadoria e organização do Palacio de la Cultura y Galeria de Notables del Beni “Dr. Aldo /Bravo Monasterio”, de Guayaramerin, Beni/Bolívia.
A localidade de Cachuela Esperanza, situada na margem direita do rio Madre de Dios (hoje rio Beni), pertence ao Departamento de El Beni, Província Vaca Díez, foi um ponto estratégico para o escoamento da borracha produzida nos seringais bolivianos. Inicialmente, o Distrito foi ocupado por trabalhadores e seus familiares que habitavam na fronteira Brasil-Bolívia.
Durante a exposição, o Dr. Juan Carlos Crespo Avaroma apresentou vídeos e contextualizou a expansão da região, destacando a atuação de Nicolás Suárez Callaú, idealizador e responsável por estruturar o empreendimento com mão de obra internacional.
As imagens evidenciam a existência de relações históricas políticas, econômicas, sociais e culturais entre as cidades gêmeas Guajará-Mirim e Guayaramérin, na fronteira Brasil-Bolívia, que foram intensificadas com a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, entre o final do século XIX e início do século XX, devido o povoamento e desenvolvimento da região.
Com o declínio do ciclo da borracha e da “Casa Suárez”, a dinâmica local passou a se concentrar no comércio, turismo e práticas sociais (eventos cívicos, eventos religiosos, casamentos e outros).
Atualmente, a população que ainda reside no Distrito, mantém atividades como pesca e coleta de castanha, embora insuficientes para impulsionar a economia. Nesse contexto, dada a exuberância das belezas naturais e o patrimônio histórico da localidade, destaca-se o potencial de desenvolvimento do turismo histórico como alternativa de revitalização da região.
2. Minicurso intitulado: Entre fronteiras, memórias e narrativas: as múltiplas linguagens das águas amazônicas.
Das 14h às 17h30min.
Ministrado por Elysmeire Pessôa, pesquisadora e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL/UNIR), o minicurso abordou as relações entre literatura, território, memória e identidade na Pan-Amazônia, destacando os rios como elementos estruturantes das dinâmicas sociais e simbólicas.
Desde a abertura, a proposta deslocou o olhar tradicional sobre o campo das Letras, convidando os participantes a refletirem sobre o caráter científico da literatura. A partir da provocação “somos cientistas da palavra?”, evidenciando que os estudos literários também operam com método, rigor e produção de conhecimento, especialmente ao interpretar sentidos, contextos e formas de existência.
A Panamazônia foi apresentada como uma rede de territórios conectados pelas águas, superando a ideia de fronteira como divisão. Nesse contexto, cidades como Guajará-Mirim (Brasil) e Guayaramerín (Bolívia) foram compreendidas como espaços de encontro, onde o Rio Mamoré atua não como limite, mas como elo entre culturas, histórias e identidades.
Destacou-se a importância dos rios na formação geográfica, histórica e simbólica da Amazônia. Os rios, mais do que elementos naturais, atuariam como estruturas fundamentais na organização da vida, influenciando práticas sociais, sistemas de crenças, expressões culturais e produções artísticas.
No campo literário, o curso abordou a presença dos rios em narrativas amazônicas, evidenciando através do conceito autoral “litera-rios”, a centralidade e presença dos rios em contextos fortemente marcados pela presença das águas fluviais, a exemplo da literatura de expressão amazônica. Destacando que nas obras analisadas, os rios não se limitam ao papel de cenário, atuando também como memória, identidade, caminho, obstáculo e, em muitos casos, como verdadeiros sujeitos narrativos.
A atividade incluiu momentos de análise textual e produção de narrativas, estimulando os participantes a refletirem sobre suas próprias experiências com os rios e o território.
A iniciativa reforça o compromisso do Câmpus Jorge Vassilakis de Guajará-Mirim-UNIR, com a valorização das culturas amazônicas e a promoção de práticas acadêmicas que integrem ensino, pesquisa e extensão, entre discentes e docentes da UNIR e representantes culturais de Guayaramerín (Bolívia), promovendo e fortalecendo o diálogo intercultural e fronteiriço da/na região.






























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