RUBENS COUTINHO/DO TUDORONDONIA
O secretário de Segurança Pública de Rondônia, Marcelo Bessa, comemorou muito o deferimento, pela justiça, de medidas cautelares contra seu inimigo pessoal e do governador Confúcio Moura (PMDB), José Hermínio Coelho, presidente da Assembleia Legislativa, afastado do cargo por ordem judicial pelo período de 15 dias.
Além disso, Bessa conseguiu impor ao desafeto tagarela uma primeira grande derrota, ao conseguir seu afastamento da Presidência da Assembleia, mesmo com parecer contrário do Ministério Público. Ao mesmo tempo, cumpriu o que havia prometido a Confúcio: derrubar Hermínio.
Dentro do jogo político, Bessa tem motivos de sobra para comemorar. Ele conseguiu dar o troco a Hermínio, que impediu, por meio de mudanças na lei, que o delegado fosse presenteado pelo governador com o cobiçado cargo de conselheiro do Tribunal de Contas.
Hermínio mexeu os pauzinhos na Assembleia e aprovou uma lei que tirou Marcelo Bessa do páreo. Sua ida para o TCE era dada como cartas marcadas, mas o plano gorou.
Segundo Hermínio, o governador daria o cargo a Marcelo Bessa em troca do silêncio deste em relação à corrupção existente no Executivo. Bessa, ainda de acordo com Hermínio, teria gravações comprometedoras, feitas sem autorização judicial, tanto de Confúcio quanto do cunhado do governador, Francisco de Assis, e de membros do Governo peemedebista, além das irmãs Moura, Cira e Cláudia.
Estas gravações seriam usadas como arma para chantagear o chefe do Poder Executivo Estadual. O cargo de conselheiro do Tribunal de Contas estaria na barganha. Entrariam como moeda de troca no toma-lá-dá-cá em que se tranformou a administração peemedebista.
Sobre as escutas clandestinas, o próprio Hermínio já havia dito que estava sendo gravado ilegalmente por Marcelo Bessa, acusado pelo parlamentar de utilizar a estrutura da Segurança Pública para grampear adversários políticos, inclusive ele.O secretário conta história diferente. Afirma que as escutas começaram há um ano e meio e são autorizadas pelo Judiciário.
Na amanhã desta quinta, ao anunciar o envolvimento do presidente no esquema criminoso, Bessa estava exultante, mas não apresentou à imprensa nenhuma prova de que Hermínio tenha, realmente, se envolvido com traficantes e estelionatários. Por enquanto, segundo o próprio Bessa, pesam contra o presidente afastado a acusação de haver nomeado para cargos comissionados na Assembleia várias pessoas envolvidas com o bando, inclusive um dos chefes da quadrilha, o traficante conhecido por Beto Baba, lotado no gabinete do deputado Adriano Boiadeiro, e também manter relações de amizade com um dos acusados.
Hermínio se defende e afirma que, diariamente, dentro de suas prerrogativas legais, nomeia e exonera dezenas, às vezes centenas, de comissionados, sem que possa analisar a ficha individual de cada um. A maioria é nomeada para os gabinetes por indicação dos demais 23 parlamentares.
Enquanto a polícia não revela as supostas provas incriminadoras contra Hermínio, limitando-se à questão de sua relação de amizade com um dos acusados e ao fato de ter nomeado pessoas supostamente indicadas pela quadrilha, uma outra situação envolvendo diretamente o presidente do Legislativo chamou a atenção dos jornalistas que cobriram a entrevista concedida por Marcelo Bessa. Trata-se da prisão do filho de Hermínio.
O secretário não quis dar detalhes, mas um delegado informou, pedindo sigilo, que o filho do deputado foi preso porque teria pedido ao pai dinheiro para pagar a faculdade e o parlamentar teria indicado que este recorresse ao amigo que também acabou em cana .Mas o próprio delegado que participou da Apocalipse não afirmou nada sobre este aspecto da Operação , cujo nome surgiu da ideia de revelação e fim. O delegado limitou-se a repetir o que teria ouvido de um colega envolvido diretamente nas investigações.
Foi Hermínio quem acusou o cunhado e os parentes do governador – irmãs e a própria mulher do chefe do Executivo – de terem se beneficiado num esquema de propina envolvendo a Empresa Multimargem, do enrolado José Batista da Silva. Tudo documentado e entregue ao Ministério Público de Rondônia.
Recentemente, Hermínio voltou a denunciar Confúcio e seus parentes por crimes de corrupção envolvendo o recebimento de propina em contrato do Governo.
Não por acaso, o principal interessado em embaraçar a vida de Hermínio viajou misteriosamente na véspera e entregou o Estado ao vice, Airton Gurgacz (PDT).
A polícia deixou para fazer sua operação quando Hermínio estava viajando para São Paulo, devidamente monitorado.
O Ministério Público, consultado pela justiça estadual, opinou contrário às pretensões de Marcelo Bessa de afastar o presidente do cargo e de fazer busca e apreensão em setores da Assembleia. E quem negou o pedido foi , nada mais, nada menos, do que o procurador de Justiça Ivo Scherer, considerado totalmente avesso à política partidária e um dos maiores "Caxias" do Ministério Público Estadual.
O afastamento de Hermínio, segundo o MP, era desnecessário, uma medida "desarrazoada" ( contrário à razão, despropositada, injusta, que não tem fundamento). Mesmo assim, Bessa passou por cima do parquet, foi diretamente à justiça e obteve o que queria: tirar Hermínio do cargo e encalacrá-lo politicamente.
Dificilmente esse afastamento vai durar muito tempo. E também é remota a possibilidade de vingar uma ação penal contra Hermínio, uma vez que o próprio MP manifestou-se contrário às pretensões de Marcelo Bessa, e o MP é o dono da ação penal, ou seja, o órgão a quem cabe denunciar ou não o acusado à justiça, ato jurídico sem o qual nenhuma ação criminal prospera.
A propósito: durante sua entrevista, Marcelo Bessa deu uma alfinetada no MP, sugerindo que o órgão vinha tentando se apossar sozinho de méritos de operações anteriores, cujos resultados teriam sido obtidos não pelo Ministério Público, mas pela polícia.
Mas quem apostou que Hermínio ia ficar calado depois de sua adversidade desta quinta apostou errado, pois o boquirroto já marcou para às 10 horas desta sexta-feira uma entrevista com a imprensa em que promete mostrar o apocalipse a Marcelo Bessa e Confúcio Moura.
A briga política promete. Por enquanto Hermínio está nas cordas, mas não foi nocauteado.
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